Sabe quando você chega num lugar com o coração aberto, mas o cenário não colabora muito? Foi assim que cheguei em Coron, Palawan, nas Filipinas. Vim de navio, como quem desliza no mar entre ilhas que parecem pinturas. Mas o desembarque foi outra vibe.
O porto fica a uns 2km do centro — dá pra ir a pé tranquilamente. E foi o que eu fiz. Não porque a caminhada era charmosa (não era), mas porque os preços surreais dos tuktuks me fizeram repensar a vida. Sim, me pediram $40 dólares por um trajeto que normalmente custa uns $5. Como tenho muitos amigos filipinos no navio, eles ja haviam me alertado sobre preços e o que era justo pagar.
Decidi encarar o caminho a pé. Uma rua comum, simples, com bastante lixo acumulado… e uma sensação esquisita de não saber se era seguro ou não andar por ali sozinha. Mas fui. Na dúvida, sorria e segue o fluxo.
Vários tuktuks passaram me oferecendo “taxi”, mas algo me dizia pra seguir em frente. Até que um homem parou, com uma menininha de uns 10 anos no banco de trás e uma mulher grávida — de uns 8 meses — no banco da frente. Ele não falou “taxi”. Ele disse:
— Quer uma carona?
Desconfiei. Claro. Mas perguntei quanto ele cobraria. Ele respondeu:
— Nada. Se você quiser me dar algo, tudo bem. Mas não vou te cobrar.
E foi ali, naquele momento, que minha experiência em Coron começou de verdade.
Eu precisava encontrar um banco pra trocar dinheiro. Ele disse:
— Eu te levo.
Como o banco não era tão perto, perguntei se ele podia me esperar e depois me deixar no centro.
— Claro. Vai tranquila.
Fiquei cerca de 30 minutos no banco. E sim: quando saí, ele ainda estava lá, me esperando. Usou esse tempo pra deixar a esposa e a filha em casa e voltou só pra me buscar.
Aquele gesto me desarmou. A gentileza dele, a simplicidade, a confiança mútua que se criou sem palavras… Mexeu comigo. Perguntei se ele não queria me acompanhar pelo resto do dia, já que eu queria garantir a volta ao navio. E ele, sorrindo, respondeu:
— O que você quiser me pagar tá bom. Qualquer $5 já me ajuda muito. Ali eu vi que tinha feito a escolha certa, não por ele estar me cobrando barato, mas por ser uma pessoa honesta, humilde, e que sabia que qualquer coisa ajudaria a sua família naquele momento.
Ele não era só um motorista. Era um guerreiro. Um homem que carrega o peso da vida e ainda assim escolhe ser leve com o outro.

Um pouco mais sobre as Filipinas
As Filipinas são um arquipélago com mais de 7.000 ilhas espalhadas pelo azul surreal do sudeste asiático. Um país de contrastes: de um lado, praias dignas de cartão-postal, de outro, vilarejos simples onde o tempo parece ter parado. A capital é Manila, mas os verdadeiros paraísos estão espalhados por lugares como Palawan, Boracay, Siargao e Cebu. A população passa dos 110 milhões, e apesar da diversidade, quase todo mundo fala inglês(muitas vezes não perfeito, mas existe comunicação) — o que torna tudo mais fácil pra quem viaja sozinha. É um lugar onde o caos e a calma coexistem, e onde cada ilha guarda uma história e um pôr do sol que você não esquece.
Um Barco, Três Ilhas e Um Primo
O plano era simples: ver com os próprios olhos o que todo mundo chama de paraíso.
Nas redondezas de Coron, é comum ouvir que as praias mais bonitas não estão na cidade em si, mas sim nas ilhas vizinhas — acessíveis só de barco. E claro, como boa viajante que conversa com todo mundo, eu já tinha meu motorista do dia (lembra dele?) e ele tinha… um primo.
— Você quer passeio de barco? Espera que vou ligar pro meu primo.
E em menos de cinco minutos estávamos indo juntos ao pier pra encontrá-lo. A vida nas Filipinas é assim: rápida na improvisação, lenta na alma.
Como eu só tinha cerca de 3 horas livres, ao invés de visitar as 5 ilhas que o primo ofereceu, escolhi focar em 3 das mais espetaculares e próximas, pra curtir sem pressa. E que escolha!
Visitamos:
• Twin Lagoon – um espetáculo onde as águas frias e quentes se misturam, entre paredões de pedra que parecem guardiões do silêncio.
• Kayangan Lake – o lago mais cristalino que já vi. A vista do alto é famosa, mas nadar ali dentro… é outra coisa.
• Malcapuya Island – areia branquinha, coqueiros tortos na medida certa e aquele mar tão turquesa que parece edição de foto. Só que não é.
Não tem como descrever. Não tem filtro, nem palavra, que capture o que é estar lá.
É daqueles lugares que fazem você repensar a pressa, o caos, a cidade, a vida.
Em 3 horas, mergulhei em águas transparentes, ri com desconhecidos que pareciam amigos de infância, e entendi — de novo — por que vale a pena sair do roteiro tradicional.



Cultura e Hospitalidade Filipina
Se tem uma coisa que me marcou nas Filipinas — além das paisagens surreais — foi o coração do povo. Existe uma gentileza silenciosa, uma forma de cuidar sem invadir, de ajudar sem esperar nada em troca. A cultura filipina mistura tradições asiáticas e influências espanholas, mas o que mais se destaca é a alegria no simples, o respeito pelo outro e um senso de comunidade que a gente sente até nos pequenos gestos. Seja em Manila ou numa ilha remota, sempre tinha alguém sorrindo, oferecendo ajuda ou simplesmente querendo saber de onde eu vinha. E isso, no fim, é o que mais fica: as conexões humanas.
Depois de algumas visitas às Filipinas e tantas experiências que marcaram minha trajetória, posso dizer com certeza: é um dos meus lugares favoritos no mundo. Um país que entrega tudo — paisagens de tirar o fôlego, ilhas que parecem sonhos, um povo acolhedor de verdade e uma culinária que surpreende em cada detalhe. As Filipinas têm alma, têm contraste, têm poesia… e deixam vontade de voltar antes mesmo de ir embora.
Planejando sua Viagem
Se você está planejando uma visita às Filipinas, é importante ter em mente que o clima tropical do país pode variar significativamente de região para região. A estação seca, de novembro a abril, é geralmente considerada a melhor época para visitar, enquanto a estação chuvosa, de maio a outubro, pode trazer chuvas pesadas e tufões ocasionais.
Dicas práticas pra quem chega por Coron:
– Porto até o centro: 2km de caminhada.
– Evite pegar tuktuks logo na saída do porto — os preços são inflacionados pra turistas.
– Tenha dinheiro trocado ou câmbio feito com antecedência. Nem sempre é fácil achar banco aberto ou ATM funcionando.
– Confie na sua intuição. Às vezes, ela te guia melhor do que o Google Maps.
– E claro… às vezes, o melhor guia do dia é um completo estranho com um coração gigante.






